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A Matriarca

4 de outubro de 2013

 

 

 

Se tem uma pessoa de que tenho muito orgulho, essa pessoa é minha avó… Não só dela, mas de toda minha família. Por isso para homenageá-la, em um trabalho de faculdade feito em 2012, escrevi um pouquinho sobre ela. Conheçam a gracinha que é a dona Mazilda.

 
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A Matriarca

Quem vê a pequena casa de madeira com a pintura esverdeada já envelhecida, em um terreno com um grande gramado sem cercado e sem portão, pode não acreditar que em um local tão livre haja tantas histórias guardadas. A senhora é baixinha e robusta. Tem cabelos curtos e encaracolados pretos. Mesmo com a idade avançada, tem poucos fios brancos. O andar meio torto por causa de uma complicação no joelho não atrapalha tanto quanto parece e torna-se um desafio superar essa dificuldade. Ao lado da casa, um precioso quintal cercado, com verduras e flores coloridas, que desperta curiosidade de tão bem cuidado.

Nascida em 1932, em Itajaí, junto com outros seis irmãos, Mazilda Coelho passou parte de sua infância no bairro Itaipava, onde morava com os pais Maria Ana Coelho – hoje conhecida pelos netos e bisnetos como Vó Marica – e Anísio Belmiro Coelho. Quatro irmãos já são falecidos: duas meninas, Marília e Moacília, morreram ainda bebês por doenças desconhecidas na época; Moacir, o único irmão homem, faleceu aos 60 anos em um acidente de moto na BR 101 e Maria Ana morreu de velhice aos 72 anos. Ainda completam a família de Mazilda, as irmãs Merci e Mailza, as duas mais novas.

Aos oito anos já trabalhava na lavoura com os pais, e quando não ia para a roça, cuidava dos afazeres domésticos.“Caía muita folha, mas eu queria varrer todo o terreiro, pra mãe gostar quando chegasse em casa, tudo estivesse limpinho. Pra fazer a comida, tinha que fazer fogo com de lenha. Eu buscava um pauzinho de fogo na casa da tia Caloca e trazia pra acender o fogão e apomboca”.Pombocaservia como uma lanterna, era uma luminária com fogo e querosene.

Aos dez anos, mudou-se com a família para outra região do interior da cidade, o bairro Volta de Cima, até hoje pouco conhecido. Uma única estrada, às margens do rio Itajaí Açú, ainda hoje de terra, formava o bairro que ganhou o nome pela curva que o rio faz naquela região, perto da ponte na BR 101 que divide Itajaí e Navegantes. Quando mudou-se para a comunidade com os pais, os moradores do lugar plantavam e vendiam cana para a conhecida Usina de Açúcar, localizada no outro lado do rio Itajaí-Açú, em Navegantes. Nos anos 40, a família foi em busca de uma vida melhor e passou a morar em um terreno alugado, fazendo a mesma atividade das outras famílias. Além da cana, plantavam mandioca e produziam farinha pra vender. Arroz, feijão, milho, vaca de leite e animais para o abate, como porcos e galinhas, eram cultivados para consumo próprio, já que não havia um meio de comprar e conservar os alimentos, como a geladeira, por exemplo.

Mesmo em uma época com poucas oportunidades, Mazilda completou o Ensino Fundamental e os cadernos caprichados fizeram três de suas filhas seguirem a profissão de professora. No início, fazia as atividades em uma lousa e depois apagava, porque não tinha caderno. “Gostava de estudar Matemática, resolver problemas… Se eu fosse continuar a estudar, seria Matemática”. Nada tem a reclamar da educação de casa, a mãe é elogiada a todo instante pelo capricho e cuidado com as filhas. “Minha mãe foi muito caprichosa com a gente, nunca deixou irmos pra escola sujos, sem tomar banho, com roupa velha, mesmo naquela época com dificuldades. Não se tinha chuveiro, água encanada, era banho de canequinha, não tinha muita opção… Antes de sair, ela olhava nossos cabelos, nossas orelhas, se estavam bem limpos, fiz o mesmo com meus filhos…” Hoje, as três filhas professoras reclamam das mães, que mesmo com tanta mudança, deixam os filhos irem sujos pra escola sem sequer dar um banho.

Na infância, ela e os irmãos se alegravam quando o céu escurecia. “Gostava de brincar à noite com os vagalumes e com a Lua… Benção dindinha Lua, me dá peixe com farinha, pra dar pra minha gatinha, que está presa na cozinha debaixo da balainha… Chictchictchict…” Faz silêncio e lembra de uma das brincadeiras de criançaCom o céu bem claro a gente ficava na estrada batendo foto na lua” brincadeira que quando fixava os olhos por alguns segundos na própria sombra, quando olhava pra lua a mesma imagem estava lá. “A vida era difícil, mas a gente era contente. A gente não era pobre, pobre… a gente se divertia, fazia festa, não tivemos drama na família. As enchentes foram difíceis, mas a gente superou tudo”.

Da adolescência, ainda lembra da melhor amiga, com quem trocava confidências. Sempre visita o túmulo da amiga íntima Maria. “Hoje, a gente aprende muita coisa na escola, mas antigamente era muito um com o outro”. Não muito diferente de hoje, começou a gostar de um rapaza os 14 anos, conversava e dançava com ele nos bailes, e aos 16 começou a namorar em casa. Alguns bailes aconteciam nas casas de família.Quando um morador fazia casa nova, só com as paredes e o chão feitos, os vizinhos e parentes eram convidados pra comemorar e vairavam a noite em festa.

Quando um homem tirava a moça pra dançar, ela não podia negar. Se não gostasse dele, pisava o que podia no pé do sujeito durante a dança, pra que ele não gostasse dela também e não a escolhesse mais. Mas, as mulheres também tinham sua chance durante a marca da gasosa, quando as moças escolhiam um rapaz pra dançar. Gasosa era um refresco da época, parecido com o refrigerante de hoje, que tinha esse nome por causa do gás. A marca da gasosa era um momento durante o baile em que os papéis se invertiam. As moças escolhiam um rapaz pra dançar, e depois da dança, eles pagavam uma gasosa, uma bebida pra moça. “Tinha uns rapazes que saíam do baile na hora da gasosa – eu sei que fulana vem me tirar e eu não vou dançar com ela”, lembra.

Foi em uma das marcas da gasosa que Mazilda e João se conheceram melhor. João Pereira era bem disputado entre as meninas, mas escolheu Mazilda para dividir o resto da vida. “Eu gostava do João, mas tinha outra moça que gostava também e ela queria tirar ele pra dançar antes de mim, aí ficava aquela disputa”. Namoraram por três anos. Em setembro de 1951 noivou e em 23 de fevereiro do ano seguinte, com 19 anosMazilda ganhou um novo nome: Mazilda Coelho Pereira. Jura de pés juntos que engravidou na sua primeira noite de amor, na lua de mel, e teve seu filho em novembro do mesmo ano. No decorrer de dez anos, Mazilda teve todos os filhos, seis no total, dois homens e quatro mulheres: Jamir, Izabel, Iria, Irani, Maria Ironete e Jael, nessa ordem. Todos ainda moram no mesmo bairro,na barra da saia da mãe.

A tradição até hoje sugere que os pais da noiva devem pagar o casamento, e a família Pereira não perde uma folia. Todos os filhos tiveram grandes festas com muita fartura.Irani, que hoje já completou bodas de prata, teve uma das maiores.A família toda se mobilizou pra fazer o casório, cozinhando, limpando, fazendo o vestido da noiva, e o bolo. “A gente fazia barracas com bambú, tudo aqui mesmo no quintal de casa, foram uns 400 convidados. Matamos um boi, um porco e 110 galinhas pro casamento da Irani”.

Nos anos 50 ainda sem relógio em casa, os horários eram marcados através do sol, das estrelas, do cantar do galo, e até dos aviões. Mazilda garante que nunca perdeu a hora de ir pra roça. Acordava sempre antes de João, e ia direto pra janela ver o céu, quando o galo não cantava. Enquanto estava na lavoura, sabia a hora das refeições pelo sol, e a hora de voltar pra casa por causa de um avião que passava diariamente. “A gente via no céu o avião das 11h, aquele era um avião correio, passava todo dia no mesmo horário. Também tinha a fábrica de papel, que apitava o sinal sempre às 16h”.Sempre devota à Igreja, foi catequista por muitos anos, e hoje é presidente do grupo Apostolado da Oração no bairro em que mora. Vai à missa todo domingo, e às vezes vai de ônibus ao culto, às quartas-feiras na igreja Matriz de Itajaí.

 

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A convivência com o marido e os filhos sempre foi boa. O segredo é a mistura de confiança, paciência e muito amor. O resultado, é uma família grande, unida e muito feliz. Como nos filmes e novelas que a gente vê na televisão, os 14 netos e os sete bisnetos não pensam duas vezes antes de passar o final de semana na casa da vovó. Domingo, a casa pequena de madeira se enche de gente, um bate papo longo, com direito a café da tarde, jantar e muita diversão com brincadeiras e piadas. No início de 2012, uma grande festa estava sendo planejada na família pra completar os 60 anos de casamento de Mazilda e João, mas a morte do patriarca, com 84 anos, fez com que todos perdessem um pedacinho do coração. Porém a alegria continua viva em memória a história que João deixou.

Aos 80 anos, Mazilda não perde um segundo sequer. Vive intensamente, pratica tudo que pode, e seu passatempo favorito é o artesanato. Borda e pinta em tecido, faz crochê, patchwork, costura… Todas as terças, se reúne no clube de mães do bairro onde, com outras colegas, pratica as atividades e conversa. A professora se surpreende a cada dia com a agilidade da senhora, que mesmo debilitada pela idade, tem experiência e prática suficientes para ser a primeira a terminar os trabalhos, sempre muito bem feitos. Além das atividades com tecido, Mazilda faz questão de fazer bolo e pão em casa, e cultiva uma pequena horta de encher os olhos, com cebolinha, alface e outros temperos e ervas para chá. Vez ou

outra, o grupo do clube de mães faz um passeio para alguma cidade vizinha ou evento, e Mazilda não falta a uma excursão. Em novembro já tem viagem marcada para São Paulo, para visitar o santuário de Nossa Senhora Aparecida.

Com o andar desequilibrado, desce as escadinhas da casa de madeira, rumo ao portão do quintal, onde fica a horta. Todo dia bem cedo, a primeira missão é regar as plantinhas, uma capinada aqui e ali quando precisa e, às vezes, até arranca um mato ruim com a mão. Pernas esticadas, e mãos no chão, flexibilidade excelente pra uma idosa que já operou os joelhos e sente dor nas costas com frequência. Algumas flores, junto da cerca, decoram a plantação, deixando tudo ainda mais bonito.

É difícil cuidar da horta, há dias em que os pés rachados, de tão seco, e a dor nas costas deixam os afazeres em segundo plano. Mas, é raro encontrar essa mulher parada. Uma batalha que não acaba, e que traz grandes alegrias a cada vitória, é assim a sua vida… Duas novas alegrias estão por vir, duas novas sementes foram plantadas no quintal, mais dois bisnetos. A horta continua sendo regada, e rendendo bons frutos… A família cultivada, fazedora de alegrias não para de crescer.

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