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Diário de Marco

18 de maio de 2011

“24 de março de 2004

– Ainda tenho saudades da mamãe e lembro dela todos os dias. Quero pedir pra Deus que deixe ela esperando por mim num lugar bom.”

            Com pouco mais de 18 anos agora, Marco lida bem com a trágica história. Sua recuperação foi ótima do ponto de vista médico psicológico e o diário fez parte do tratamento.

Hoje mais de 45 pessoas já tinham morrido como seus pais durante a alta temporada de Santa Catarina, e ele revelaria aos amigos, depois de algumas doses, tudo o que viveu no Natal de 2003, no mesmo período de verão, entrando para as estatísticas policiais de trânsito. Seus melhores amigos, os únicos dois de infância que sempre perguntavam sobre aquela noite e sobre as inúmeras faltas seguidas que teve na escola. Eles sabiam do acidente, mas nunca souberam do trauma que ficou guardado em Marco. Até porque, também eram crianças, e ninguém os contou.

O trânsito nos finais de semana e feriados sempre triplica no litoral catarinense, especialmente na alta temporada, mas por incrível que pareça tudo estava tranquilamente bem. Eu já sabia que ia ganhar um vídeo game, mas meus pais sempre escondiam e nunca me deram o presente antes da hora. Vinha cantarolando de felicidade enquanto minha mãe e meu pai seguiam calados e emburrados desde que saímos de casa.

Não entendia muito bem, mas escutei uma gritaria enquanto tomava banho ainda em casa, antes de embarcarmos no carro para casa de uma irmã da Vó Odete em Brusque. Pelo que ouvi da discussão, era mamãe possessa de ciúmes do meu pai. Seu Antonio e seus truques.

Marco voltava as páginas do diário onde recordava a tragédia, era onde começava o diário, mas a página tinha sido arrancada e estava perdida em meio as outras. Lucas, seu amigo mais antigo se certificou pela última vez de que era a coisa certa a se fazer

– Relaxa cara! Não precisa fazer isso, é coisa sua.

Decidido, Marco nem respondeu, deu mais um gole na vodka com energético, achou a página e continuou; seu objetivo era encerrar a história ali e não lembrar mais. Era tarde da noite e sozinhos, em casa, ele, Lucas e Ricardo tinham bebido enquanto jogavam poker até chegar ao assunto, era o momento perfeito.

Nossa família tradicionalmente se reunia nos Natais na casa da Tia Alice, e todo dia 24 de dezembro fazíamos esse trajeto, quase sempre no mesmo horário também. Rodovia Antonio Heil, Itajaí destino Brusque, poucos minutos e logo chegaríamos no destino, mas não chegamos.

Naquele momento a mente de Marco voltava oito anos atrás, como se estivesse de novo no dia 24 de dezembro de 2003. Pela primeira vez o menino assustado de dez anos contava detalhadamente a alguém sobre o acidente que presenciou.

Minha mãe, pra quem não conheceu se chamava Luciana e tinha 32 anos na época. Era linda, com seus cabelos pretos e lisos, mas hoje mal recordo seu rosto, nem sequer por foto a reconheço direito, às vezes me sinto culpado por não lembrar minha própria mãe. Sempre foi carinhosa comigo, filho único mimado, apesar de grande parte de o meu dia ser com Vó Odete. Mamãe era desconfiada com meu pai, e hoje posso dizer que ela tinha razão.

Vó Odete e Vô Pedro eram pais do meu pai e também estavam quietos durante a pequena viagem, mas via no rosto deles que estavam contentes como eu. Sentava no meio deles no banco de trás do Gol. Vó Odete a minha direita e Vovô a minha esquerda, vez o outra faziam uma brincadeira para me distrair. Em questão de minutos tudo se foi.

Pra falar a verdade nem sei como lembro, foi tudo rápido eu só chorava sem saber porque. Era muita gente e eu tava com medo. Ainda não sabia.

Eu continuava cantarolando, e vi um carro vindo em nossa direção, e como se tudo estivesse em slow motion os segundos levaram horas.

Esse carro vinha na outra pista, na direção contrária, estava um tanto rápido. Era um trecho da rodovia onde não tinha casas, nem nada, ficamos perdidos. Meu pai só notou em cima da hora, quando o carro já estava muito perto, tentou fugir para fora da pista, mas não adiantou. O canto dianteiro esquerdo do nosso carro se chocou com a frente do outro. Mas isso não é o pior.

Nosso Gol capotou duas vezes caindo em pé, e simplesmente pegou fogo. Começou a queimar numa rapidez incrível, e eu estava lá dentro, perdido, junto com toda minha família.

Era por volta de oito da noite, e em Brusque o restante da família nos esperava para a ceia e a troca de presentes. Dona Hilda, uma senhora amiga de Alice, se assustou e com uma leve tontura se jogou no sofá. Suando frio e pálida como algodão, as pessoas a socorreram, mas ela não contou o que previu.

Dona Hilda era espírita desde sempre, e raramente tinha visões, mas dessa vez, um flash de fogo a derrubou. Ao fechar os olhos viu uma imagem de Marco, Luciana, Antônio, Dona Odete, e Seu Pedro em meio às chamas. Não sossegou enquanto não recebeu a notícia.

Perto das dez horas Antonio ligava do hospital, sem saber o que dizer, só chorou. Depois de acalmado, deu as notícias e o Natal de todos acabava ali. Foi o pior presente de Natal que alguém pode ter.

Eu continuava chorando dentro do carro, com muito calor. Olhei pros lados e Vô Pedro estava dormindo, depois soube que ele morreu com a batida, já que tinha problemas cardíacos e foi mais simples por assim dizer.

Vó Odete estava espantada ao meu lado, e mamãe na frente, um pouco ensangüentada também tava chocada. O fogo só aumentava.

Meu pai conseguiu se livrar do cinto de segurança, e me puxou bem rápido por entre os dois bancos dianteiros. O carro não tinha portas traseiras, e isso só piorou. Mamãe tinha uma das pernas presas, e não conseguiu sair do cinto. Vovó não conseguia sair por que estava trancada no banco de trás.

Umas pessoas estranhas que pararam na rua tomavam conta de mim. Me abraçavam e tapavam meus olhos, que eu até achei bom, porque estavam ardendo por causa do fogo. Tinha um pouco de sangue em mim também, mas não sentia dor. Meu pai desesperado parava todos os carros da rodovia pra pedir ajuda enquanto os bombeiros não chegavam.

Foram cerca de onze extintores de vários carros diferentes, sendo usados ao mesmo tempo pra tentar salvar Luciana e Dona Odete.  Não foram suficientes. Há quem diga que as viu agonizar até o último segundo por socorro. Estavam vivas e queimando.

O condutor do outro carro, nem sequer foi lembrado. Desacordado, foi para o hospital, e saiu ileso no mesmo dia. O carro que usava, era roubado de um parente. Mas nada aconteceu a ele.

Eu fui levado pelos bombeiros, e papai não. Ele me deu um beijo na testa correndo e disse com rosto triste que ia me encontrar depois com a mamãe. Mas ela não gritava, eu nem sequer enxergava ela em meio aos destroços queimando e todos que ajudavam com os extintores já choravam. Eu chorei também, porque sabia que não a veria mais.

Aquele fogo todo ardeu em meus olhos e na minha cabeça por algum tempo. A gritaria, as pessoas chorando e o desespero me acordaram em algumas noites de pesadelo. Mas tive tratamento psicológico por anos e hoje não me importo tanto de lembrar ou contar para as pessoas.

Esse diário, eu tive de escrever pra psicóloga, mas quase não tem nada. Vou queimá-lo ainda hoje.

Todos continuaram o jogo em silêncio na mesa redonda. Lucas e Ricardo só pensavam espantados na tranqüilidade que Marco teve em contar que viu sua mãe e seus avós serem queimados. Depois rapidamente esqueceram, a curiosidade acabou.

Os três deitaram no tapete e esgotados e dormiram até o dia seguinte a tarde. Era domingo, 27 de março, quando foram acordados por Ana, a madrasta de Marco, aquela que motivou a briga de Antonio e Luciana antes do acidente.

Na sábado anterior, Marco acendeu a lareira e jogou o diário, os amigos assistiram com ele, e ficaram contentes ao se livrar do peso. As mesmas chamas do acidente queimaram na sala da sua casa, mas por um bom motivo dessa vez.

Iara R. Cunha

 
 
 
Esta é a pequena reportagem literária que fiz para a disciplina de Jornalismo literário na faculdade. Não sei ainda minha nota, mas quero saber de vocês, gostaram da história!? Comentem, cliquem nos botões abaixo e compartilhem em suas redes sociais!
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2 Comentários leave one →
  1. Adriana permalink
    20 de maio de 2011 8:21

    Parabéns… Ótimo trabalho, mais triste historia!
    Bom para refletir…
    Devemos dar muito valor as pessoas que estão ao nosso lado.

  2. 23 de maio de 2011 21:21

    Show demais o texto. Parabéns
    A história é muito triste.

    “Eu fui levado pelos bombeiros, e papai não. Ele me deu um beijo na testa correndo e disse com rosto triste que ia me encontrar depois com a mamãe. Mas ela não gritava, eu nem sequer enxergava ela em meio aos destroços queimando e todos que ajudavam com os extintores já choravam. Eu chorei também, porque sabia que não a veria mais.”

    Esse trecho arrepia

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